
Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [foto: Rafael Dabul]
Vidro
Museu Paranaense
Curitiba, PR
2023
Ficha técnica
Fotografia: Rafael Dabul
Fotografia do vídeo: Filipe Parolin
Texto: Ana Raylander Mártis dos Anjos
Revisão: Alessandro Manoel
Tradução: Miriam Aderman
Se em O Sermão da Montanha: Fiat Lux (1978), Cildo Meireles propôs que um grupo de seguranças, na realidade atores contratados, protegesse e vigiasse a pilha de 126.000 caixas de fósforos Fiat Lux, tendo como contexto a ditadura militar brasileira; em Vidro (2023), Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda, na verdade artistas da performance, propõe com seu serviço, que a dupla de seguranças encostem seus rostos na vitrine e observem, através dela, os acontecimentos que se dão no entorno, tendo como contexto a atual sede do histórico Museu Paranaense, inaugurado em 1876.
Os artistas vêm mobilizando, por meio de suas produções poético-performativas, um conjunto de ideias em torno da segurança, do trabalho e das implicações raciais que irradiam desses temas. No projeto Vidro, pensado para ocupar a vitrine do Museu Paranaense, a dupla explora o recurso do absurdo e da comicidade em um gesto firme e repleto de síntese. Utilizando um vocabulário não barulhento nas suas performances, Antônio Amador e Jandir Jr. tensionam os limites entre aquilo que é corriqueiro e aquilo que é extraordinário dentro de uma instituição de arte.
O vidro, parte central da concepção performática, ganha opacidade ao ser confrontado com o rosto dos dois seguranças. A dupla quebra com a limpeza e transparência da matéria vidro, e também com a supostas limpezas e transparências das narrativas enraizadas em museus como o Paranaense, que atravessou duas viradas de séculos, sendo criado antes mesmo da abolição da escravatura no Brasil. Ao questionarmos como foram construídos os espólios artísticos e culturais no território brasileiro, nos deparamos com narrativas de apropriação, violência e apagamento.
A dupla, ao devolver certa opacidade para os 'muros de vidro', nos permitindo finalmente enxergá-los, aponta para um revisionismo que vem sendo radical na produção intelectual e artística brasileira contemporânea. Revisionismo esse que não está situado na ideia de pureza e clareza, mas na lida com os ruídos e polifonias, constituinte de todo saber que não se pretende universalizante. Com coragem e certa dose de ironia, Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda traz para o front do debate um profissional que muitas das vezes é instruído a performar a neutralidade e rigidez, tal qual o vidro. Que o trabalho da dupla possa lançar escuros nas zonas claras de nosso tempo.
Vidro: Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., por Ana Raylander Mártis dos Anjos
Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [vídeo: Filipe Parolin]

Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [foto: Museu Paranaense]

Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [foto: Museu Paranaense]
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Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [foto: Museu Paranaense]

Vidro [texto: Ana Raylander Martís dos Anjos], 2023, Museu Paranaense, Curitiba, PR [foto: Museu Paranaense]