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Depoimentos

Com uma história construída em integridade e transparência, a Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. se apresenta como um sólido exemplo de confiança, respeito e fé entre uma empresa e seus clientes. Para comprovar, confira abaixo o que seus segurados têm a dizer.

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Conheci o trabalho dos seguranças patrimoniais ainda no mestrado em artes, quando me denominava arte-segurança de um museu. E, de alguma maneira, encontrei neles uma parceria de trabalho, entre o lamento e a ironia. A gente fazia ali uma crítica tão debochada que se construía uma cena mais ou menos dramática da situação. De alguma maneira estamos traindo o sistema. E isso não é sobre romantizar a precarização, mas sobre como a crítica pode ser malandra e escapar das rédeas do controle institucional, visto que os poderes sabem muito bem como usar crítica a seu favor, seja em formações, palestras e postagens para se autoalimentarem, enquanto incorporam os corpos no cerne do sistema. Aqui, vejo a potência das performances dos seguranças patrimoniais enquanto um truque com a própria ideia de crítica, que antes era reflexiva e formal e agora se faz debochada e descompromissada, operando a nível molecular da estrutura institucional. O arte-segurança vai ler um livro, vai usar chinelos, vai dizer não, vai descansar, falhar, dormir, roubar e aí que poderemos falar de educação fora do campo das vigilâncias.

Quando encontrei as performances de Antonio Gonzaga e Jandir Jr., era como se eu tivesse encontrado longos companheiros de trabalho entre arte-segurança e segurança patrimonial. De alguma maneira, encontrei nessas ações uma conexão em rede, ainda que tão distante. Consegui perceber um lugar da relação afetiva entre educadores museais do Brasil todo, entre a desgraça e o prazer, entre o risco e a precarização, entre a arte e a instituição. Nos lançamos no perigo ao mesmo tempo que somos perigosos.

por Laris Moraes. Excerto da dissertação Corpo entre arte e educação: crise e criação de sensibilidades no museu, defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará em 2025.

 

 

Vídeo gravado durante a performance Nada!, no Sesc Franca, em 2025. Foi divulgado nas páginas de Instagram @franca10.16 e @rafaelribeirojornalista, recebendo milhares de visualizações e dezenas de comentários.

[...] Os dois artistas se vestem de segurança, com terno e gravata, e fazem uma série de programas performáticos que expõem os nós entre instituições e seus trabalhadores terceirizados.

São performances que problematizam a cor da pele, na partilha dos postos de trabalho institucionais; a distribuição de riquezas; o valor da obra; o policiamento no interior das instituições; o trabalho contemporâneo — da invisibilidade de certas profissões à terceirização de todos seus trabalhadores. Amador e Jr são uma empresa do tipo sociedade limitada, Ltda.         
Tanja Baudoin descreveria, em 2019, a performance da dupla por meio da expressão presença esvaziada (note-se: a diferença no sentido de presença em relação ao que faz Marina Abramovic em The artist is present (2010)): “eles se vestem como guardas de segurança e ficam no canto do espaço de exposição ou perto de uma obra de arte. Eles não fazem muito, mas estão presentes.” Gosto da expressão “presença esvaziada” para começar a pensar o desdobramento do programa performático de Amador e Jr.. Muitas imagens e narrativas brotam desse jogo engendrado por sujeitos que não deveriam ser notados, mas se fazem presentes em uma miríade de ações — seguranças tomam banho de piscina no Sesc Pompeia, seguranças leem livros enquanto trabalham, seguranças brincam com os vidros do museu a la Ana Mendieta, seguranças param bem em frente a uma obra de arte, bloqueando a vista de visitantes.

 

por Natália Quinderé, no ensaio “Querido museu, não seja tão quadrado”, gentes dançam..., um dos capítulos do livro Retomadas: memória debate atravessamentos, editado pela Expressão Popular e lançado no dia 22 de março de 2025, em São Paulo.

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O contato que tiveram com os seguranças da instituição na qual trabalharam como monitores, evidenciou semelhanças entre as profissões. Mesmo tratando-se de trabalhadores no mesmo ambiente, contudo, e com vivências próximas, os acessos à instituição se deram por diferentes meios. Amador e Jandir só frequentaram museus porque conseguiram acessar a universidade. Já seus colegas, por meio do trabalho de base e sem tal formação.

Isso se aproxima da experiência no MARGS. Também só acessei museus e espaços de arte ao entrar na universidade através do curso de Licenciatura em Artes Visuais, bem como servidores e demais colegas estagiários. Já os funcionários terceirizados que executam o trabalho de base, entram por meio das empresas que prestam serviço para a Sedac, na sua grande maioria são pessoas que não chegaram ao ensino superior e/ou médio. Conheci uma funcionária, mulher negra, que exerceu por um breve tempo o trabalho de recepcionista. Ela tinha uma graduação e três especializações, mas estava na recepção. Era extremamente engajada e estudiosa, bem como dizia ser um grande sonho trabalhar em um museu de arte, pois amava muito esse universo. Infelizmente, a estrutura foi implacável, evidenciando lugares reservados a mulheres negras, e ela permaneceu por um breve período na instituição.

por Loriana Iung. Excerto do Trabalho de Conclusão de Curso Mediação e vigilância patrimonial: um relato de formação educativa ENTRE mediadores e vigilantes do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, defendido no curso de Artes Visuais da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul em 2024.

 

 

por Douglas Lopes. Vídeo gravado na abertura da exposição Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior, que esteve em cartaz na Casa França-Brasil de 22 de junho a 4 de agosto de 2024, e divulgado posteriormente na página de Instagram @100criterios, com mais de três milhões de visualizações e centenas de comentários.

A empresa Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. oferece seus serviços para espaços artísticos há mais de 9 anos, garantindo a credibilidade, confiança e respeitabilidade no cenário cultural. Em um movimento pioneiro, a contratante Casa França-Brasil cede seu espaço para que esses trabalhadores possam ampliar suas atividades laborais, se apropriando do espaço expositivo para apresentar a expertise de sua cartela de serviços executados com integridade e transparência.

 

A mostra traz a primazia das técnicas mais avançadas da vigilância patrimonial, desenvolvidas a partir de serviços personalizados direcionados às clientelas mais exigentes. Além de ser um demonstrativo dessas ações, o espaço também conta com orientações específicas para o desempenho dos procedimentos adotados pelos fornecedores, garantindo ao público a possibilidade de experienciar as tarefas laborais propostas - e recomendamos que sejam cumpridas em 8 horas de expediente, com direito a um pequeno intervalo no espaço disponibilizado.

 

Aqui, não nos referimos a uma empresa profissional nem sênior por um motivo evidente: atender às necessidades de inovação, irreverência e versatilidade exigidas pelo cenário artístico atual. O diferencial dessa empresa é, portanto, a confluência com as demandas de profundidade poética e de criação dos cenários mais distópicos da arte contemporânea, sem deixar de estar a postos para fornecer as informações mais triviais requisitadas pelo público, ou de atender à conformidade de vestuário, de postura, de raça e de classe determinadas para quem coloca o seu corpo à disposição da proteção do patrimônio.

 

Não se trata apenas de um portfólio expandido: a seriedade e a destreza adquiridas por Antonio Gonzaga Amador e Jandir Jr. na salvaguarda de bens artísticos e arquitetônicos ao longo dos anos poderão ser conferidas na execução de suas operações, presencialmente ou remotamente, dentro desta instituição. Depois de presenciar a excelência destes profissionais, o desejo pela aquisição dos serviços será latente. Então, não perca tempo: entre em contato e garanta a mais alta tecnologia de segurança patrimonial para sua próxima exposição!

 

por Carolina Rodrigues. Texto de parede da exposição Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior, que esteve em cartaz na Casa França-Brasil de 22 de junho a 4 de agosto de 2024.

Uma versão desse texto foi escrita para uma fala no EBEP-Rio, mediada por Bruno Siniscalchi, ao lado de Antonio Gonzaga Amador e Jandir Jr., dupla de artistas que participam dessa edição da Bienal, com o projeto Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. O ensaio não poderia ter sido escrito sem a mediação de Siniscalchi, as falas de Amador e Jandir, além de apontamentos do grupo, como, por exemplo, de Carolina Dutra. Agradeço as leituras de Marcelo Quinderé, Marília Palmeira e Clevio Rabelo. Finalmente, é preciso fazer um adendo. Na noite anterior à nossa conversa, uma carta de trabalhadores da Bienal foi divulgada, no dia 18 de outubro de 2023, questionando as condições precárias de trabalho dessa edição e expondo as contradições que sustentam o circuito. Em um trecho, elus escrevem que precisam passar horas em pé, sem direito, por exemplo, de ir ao banheiro, caso necessário. Por outro lado, também deixam nítido que sabem que o que está em exposição é sobre elus. A carta me joga novamente para o interior do pavilhão e atualiza, por exemplo, o trabalho de Amador e Jandir Jr. e de tantos outres, mediante o nó raça, corpos dissidentes, trabalho precário e capital financeiro.

por Natália Quinderé. Trecho final do texto Shake, shake, shake, down, down, down: 35ª em 3 visitas, publicado no número 2 do volume 8 da Revista Rosa em 30/12/2023.

Juliana Monachesi: Esse tipo de ação, justamente, se institucionalizou, né? Hoje a gente tem uma dupla de artistas na Bienal de São Paulo, com uma proposição muito parecida, não é? Amador & Junior Segurança Patrimonial Ltda. São dois jovens artistas, que discutem por meio do seu trabalho performático a questão da precarização do trabalho – por exemplo dos seguranças, daqueles profissionais que atuam nas instituições sempre em condições muito precárias de trabalho, enfim, e temos o exemplo da denúncia dos trabalhadores da atual edição da Bienal, em relação às práticas de exploração e exaustão a que a Fundação Bienal submete seus trabalhadores, da limpeza, monitores, educadores etc. Esse é o universo que eles mobilizam. Imagino que vocês conheçam. Eu entendo isso, que a Paula está afirmando – esse tipo de ação também se institucionalizou, é isso, eles estão na Bienal de São Paulo, anteriormente eles estavam participando da mostra Parábola do Progresso, no Sesc Pompeia, curadoria de Lisette Lagnado –, sim, temos esse dado de que tudo se institucionaliza, porque o capitalismo liberal consegue fagocitar tudo e transformar em produto. Mas talvez um olhar assim, mais romântico, vendo esses dois jovens criando essas performances, o que eu fiquei pensando, lendo sobre a Dupla Especializada é, eu tinha feito o seguinte paralelo: enquanto nos anos 80, talvez o sistema a ser hackeado era esse da comunicação para curto-circuitar mesmo o trânsito das informações; agora essa dupla de artistas, ao invés de ter uma atuação por exemplo no circuito midiático, é necessariamente voltada para a questão institucional – para promover essa ação disruptiva a partir de dentro. Não hackeando de fora para dentro, mas de dentro para fora.

Ricardo Basbaum: Conheço o trabalho do Jandir e do colega dele. Ele é aluno da UFF, onde eu trabalho, participei de sua banca de mestrado… Conheço bem. E achei interessante ver as fotografias de um momento da performance deles na Bienal, que me lembrou muito o 6 Mãos, sem dúvida. Porque a penúltima vez que a gente fez a ação dos garçons, andando pela exposição no MAM, a gente comprou comida, garrafa de vinho, talheres e pratos. A gente andou pela exposição sem servir ninguém, tínhamos uma toalha, encontramos um ponto na exposição, botamos a toalha no chão, sentamos e nós mesmos nos alimentamos e bebemos o vinho e tal. Era muito legal e provocador. E uma referência dos garçons era o trabalho do Cildo, das garrafas de Coca-Cola, quer dizer, como é que a gente poderia entrar na estrutura da exposição e sair de um modo, vamos dizer assim, suave, preciso? E a gente achou que os garçons eram, de fato, os agentes desse tipo de situação, nos vernissages, dos quais a gente poderia, vamos dizer assim, nos aproveitar, aproveitar desse papel para entrar e sair.

por Juliana Monachesi e Ricardo Basbaum, em parte da entrevista Beba Geração 80, com a Dupla Especializada, composta por Alexandre da Costa e Ricardo Basbaum, e publicada pela revista seLecT_ceLesTe em 13 de dezembro de 2023.

1.

“Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie.”

 

Não sei se você que está lendo esse texto estuda ou trabalha com arte e, se for o caso, não sei se se identificará com a chacoalhada que levei ao ler Sobre o Conceito de História (1940), pela primeira vez. Em especial, após ter lido a frase acima – que está na tese 7 deste último texto de Walter Benjamin, escrito sob um contexto terrível – que vem me assombrando desde então. A cada vez que me inclino a me encantar com alguma obra de arte, a ingenuidade necessária é logo suspensa por esse fantasma desagradável. A cada novo trabalho ou gesto verdadeiramente revolucionário, quando vejo, estou testando os limites da frase, mais uma vez. O hábito, além de ácido, é inútil. Com o tempo, aprendi algo com essa compulsividade, bem próxima de outra: a que busca uma arte livre de contradições. Mais do que não poder ser ciência – como anunciou Kant no fim do século 18 –, essa arte amada e odiada foi forjada pela modernidade. Hoje, em 2023, parece não haver mais dúvidas de que o moderno é coisa do passado, mas seguimos presos em suas armadilhas.

2.

“Nem todos os progressos, contudo, se fazem sem contramovimentos, sem retrocessos, e sem perigo: a Bienal paulista não escapou a essa dialética.”

 

A Bienal de Cá para Lá foi escrito por Mario Pedrosa em 1970, sob um contexto radicalmente diferente de 2023. Preparando uma aula, reli esse texto há algumas semanas. Minhas frustrações com o cenário político presente destacaram essa frase de sua origem para colocar outros atuais no lugar da “Bienal paulista” do passado – até que fui à própria “Bienal paulista”, de hoje. 

 

Com o tema Coreografias do Impossível, a 35ª edição é assinada por um coletivo curatorial e entra para a História como a primeira com minoria branca. Minha experiência, como público, começou com a tentativa de conciliar a visita com as datas das performances de Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. Quando consegui ir, já era fim de novembro. Nesse meio tempo da Bienal em cartaz, vi, ouvi e li “spoilers” de diversas perspectivas, incluindo a denúncia dos trabalhadores que sustentam esse megaevento de arte: um balde de gelo que revelou os limites das guilhotinas.

 

3.

Após a segunda visita, saí lamentando por quem não teve a oportunidade de assistir às performances de Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., parte dos poucos respiros dessa Bienal claustrofóbica e que limita o público a algumas únicas coreografias. No catálogo da mostra, o texto dos curadores Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel apresenta os princípios nos quais o escritório Vão baseou-se para desenvolver o projeto de arquitetura e expografia, como diversos ritmos para percorrer os espaços expositivos, a relativização da escala monumental e, especialmente, o enfrentamento ao vão central de Oscar Niemeyer, além da ausência de ordem cronológica ou temática.

 

O projeto interessantíssimo materializa-se em infinitas salinhas com longas paredes brancas, tão altas que interrompem o alcance do ar-condicionado e da luz natural, um dos grandes acertos dos amaldiçoados projetos modernistas. Para completar, as portas de algumas dessas salinhas ficam praticamente escondidas. Não bastasse o calor (imagina para os trabalhadores!) e o cansaço de toda grande exposição, a experiência com a obra de arte também precisa dividir espaço com a dúvida sobre ter perdido alguma portinha.

Mas o maior prejuízo foi a assepsia. Uma das partes mais interessantes da noção contemporânea de curadoria é a possibilidade de estabelecer relações entre obras, adicionando e amplificando seus sentidos, no momento da exposição. Parecendo uma sequência de mostras individuais e coletivas, restou à memória do visitante construir os diálogos entre os trabalhos, na 35ª Bienal. Do lado de fora das salinhas, a perspectiva torna o cubo branco repaginado ainda mais constrangedor. Elas formaram longos corredores, onde sobra espaço e deixa ainda mais esquisito o aperto dentro delas e a falta de distância para ver determinadas obras nesses corredores (onde, como acabei de dizer, sobrava espaço). A maratona artística inclui um aviso inapropriado, na subida da primeira rampa, que recomendava um trajeto específico para percorrer a exposição, tão labiríntico quanto a saga que narrei acima.

4.

Em meio a estranheza geral, em algumas datas, o público pôde contar com os serviços da empresa Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. que, ressalta-se, atua no ramo artístico dedicada à salvaguarda das relações. E, portanto, trabalhando na contramão do projeto da própria Bienal que protegeu as obras de todas as outras e, especialmente, dos visitantes. Assim, tornou-se essencial a colaboração da empresa Amador e Jr. para desproteger as ideias em prol de cuidar das relações. As efetivas coreografias impossíveis dos sócios Antonio Gonzaga Amador e Jandir Jr. contaminam as outras obras com coisas de gente: corpos, desejos, movimentos, ritmos, burburinhos e barulhos. Sem anúncio e legendas, as performances, por vezes, confundem o público que encontra a dupla vestida de segurança, com postura e rostos sisudos, mas em situações impensáveis.

Ao longo da Bienal, suas rondas contaram com o uso de chinelos (A Rigor) e dentes de ouro (Cofre). Em Sit-in, fizeram seus turnos sentados no chão, abraçando os joelhos e de cabeça baixa. Na performance Visita Técnica, o público foi convidado a um breve treinamento nas salinhas e corredores, “com foco no posicionamento necessário para a vigilância de cada local”. Como em um rebatimento, Vidro e Frestas testam, respectivamente, o edifício moderno e a montagem inovadora do Vão. Na primeira, os seguranças permanecem com os rostos colados nas imensas janelas do Pavilhão. Na segunda, eles se enfiam nos poucos espaços entre as longas e sinuosas paredes brancas.

5.

Alguns dias após a divulgação da carta pública dos trabalhadores da Bienal, estudantes do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia organizaram um abaixo-assinado que teve como um de seus alvos a pintura Alegoria da Lei Áurea (1888), de Miguel Navarro y Cañizares. Muito além do pedido de remoção da obra, foram apresentadas outras reivindicações, símbolos de insatisfações acumuladas. Apesar do desconforto que todo movimento inesperado gera, no mínimo, os desdobramentos do abaixo-assinado têm servido para revisarmos os pactos e os projetos de universidade pública que queremos, incluindo uma melhoria de comunicação entre as categorias que constroem essa instituição, que vai além de professores e alunos. Infelizmente, nas redes sociais, o difícil diálogo tornou-se impossível com o protagonismo da defesa ou da acusação igualmente enérgicas da iconoclastia decolonial, descontextualizadas da recepção atual do quadro de Cañizares, incluindo as disputas políticas que tensionam os cabos de guerra cotidianos da universidade.

6.

Os serviços da Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. são conhecidos por provocar o sistema de arte, apontando o caráter ritualístico e, por (muitas) vezes, violento de suas estruturas e códigos: do qual a presente Bienal não está livre. No caso da UFBA, por exemplo, parece simples reconhecer a barbárie comprometedora. Ainda que haja quem negue, Alegoria da Lei Áurea não deixa de ser racista. Em um aparente e pequeno desvio, gostaria de mencionar essas figuras escandalosas que, na primeira oportunidade, nem o pudor impede-as de correr para revelar-se. Com a ousadia exclusiva de um grupo social bem específico, buscam insistentemente encerrar os movimentos. Alguns foram capazes de questionar a premissa de toda a disputa da EBA/UFBA, dedicando-se, caridosamente, a explicar aos envolvidos que, na verdade, o quadro não poderia ser racista.

A despeito dessas figuras, inacreditáveis, Alegoria da Lei Áurea é racista, seja no século 21, seja no 19, quando os movimentos abolicionistas servem como parâmetros. A barbárie envolvida é explícita, ainda que haja quem se recuse a reconhecer. No caso da 35ª Bienal, se enganou quem esperava por um trabalho mais fácil para os seguranças Amador e Jr. Afinal, supondo que parte dos problemas do sistema de arte não teria lugar em uma exposição plural e diversa de verdade. A leveza, a temporalidade particular e o humor das performances da dupla, por vezes, podem aliviar o peso do seu contraste e da sua camuflagem, em meio aos seguranças de verdade.

A função de vigiar as salas expositivas pode ser exercida por diversos profissionais. Em uma grande exposição como a Bienal, por exemplo, há os seguranças tradicionais, mas também há os bombeiros e os monitores que, por vezes, dividem-se como arte-educadores. Grupo de mão de obra mais invisibilizado e desassistido do sistema de arte, junto aos serviços gerais, não teria como ter seus problemas amenizados por uma Bienal revolucionária. Em um megaevento como qualquer outro, artístico ou não, a escala humana perde-se em meio aos grandes números. Para a dupla Amador e Jr., o limite entre ridicularizar o sistema ou os seguranças começa sempre de forma imprecisa, dependendo das reações dos seguranças de verdade. Já para a maior parte do público, a rigor, os dois são seguranças, mas podem ir ao banheiro, fumar, comer, beber água, quando quiserem, com uma logística promovida para que desempenhem suas atividades da melhor e mais confortável forma possível.

 

Mesmo com movimentos limitados e encaixotados, contraditórios para a temática e estrutura propostas, essa é uma Bienal histórica. As variáveis que toda coreografia precisa enfrentar com improviso e os sobressaltos inevitáveis para sair da inércia são modos de construir, destruir e reconstruir a arte. A representatividade e a diversidade de Coreografias do Impossível não são diminuídas pelo ansioso projeto expográfico do Vão, nem pelos problemas de recursos humanos. Talvez, a barbárie inerente seja a questão mais incômoda às utopias atuais e seus paradoxos. A tradição impõe limites a tudo a que se quer chamar de arte, tão enraizados que restam poucas alternativas para integrá-los no movimento. Por enquanto, esses limites seguem imóveis: ou é arte ou está livre da tradição.

por Daniele Machado. Texto Os serviços da empresa Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. e a barbárie daqui e de lá, publicado na revista seLecT_ceLesTe no dia 7 de dezembro de 2023.

 

 

por Regiane Ishii e João Gabriel Hidalgo / Fundação Bienal de São Paulo. Reels publicado nas redes sociais da Fundação Bienal de São Paulo, por ocasião da participação da empresa na 35ª Bienal de São Paulo - coreografias do impossível, em 2023.

 

Não importa onde e o que estejam fazendo, sempre há algum desavisado que irá interromper sua ação para perguntar qual o banheiro mais próximo. A resposta para esse questionamento, vinda da dupla Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., pode ser tanto uma localização precisa como a leitura sobre as normas de um edital de seleção, como já aconteceu na performance “Condições de Exposição”.

A atuação dos dois vigilantes criados pelos artistas Antonio Gonzaga Amador, de 32 anos, e Jandir Jr., de 34, pressupõe, segundo divulgação própria, a gerência de “situações de risco em exposições artísticas de maneira minuciosa”. E essa escrição tão formal quanto genérica envolve desde se posicionar em frente a uma pintura, evitando que os outros consigam apreciá-la, até permanecer no espaço expositivo de olhos fechados ou pedir, por gentileza, que algum visitante tire uma foto deles, os seguranças, ao lado de uma obra de arte.

A ideia da dupla Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. é mesmo bagunçar os códigos estabelecidos por meio de ações inusitadas e realizadas por quem deveria manter a ordem — de quem sempre se espera, senão invisibilidade, ao menos discrição. E esse é o motivo pelo qual talvez seja tão difícil dissociar a figura dos artistas, uniformizados de terno e gravata, do vigilante a postos para tirar dúvidas e fornecer informações. Tanto que, em sua primeira ação conjunta, até mesmo uma amiga não os reconheceu na função, dirigindo-se a eles como se fossem desconhecidos.

 

Desde 2015, os dois partem da coincidência de seus sobrenomes reais, que não torna a dupla “nem profissional, nem sênior”, para elaborar performances artísticas destinadas a “clientes” que vão das galerias Nara Roesler e Leme a espaços como o Solar dos Abacaxis, o Museu de Arte do Rio e o Sesc Pompeia, por exemplo. A mais nova empreitada, com início em 6 setembro deste ano, é de enorme envergadura, já que eles irão “prestar serviços” para a maior exposição de arte do hemisfério Sul, a Bienal de São Paulo.

“Não imaginava o Amador e Jr. como um artista de interesse”, conta Jandir. “O esforço que a gente empreende às vezes é dez vezes maior que outros artistas que são talentosos, mas têm mais tempo e condições de conduzir uma carreira internacional, o que está condicionado à classe e à raça, e por isso achava que demoraria mais para esse reconhecimento.”

A ideia da dupla surgiu de uma piada, quando eles começaram a imaginar uma cena na qual alguém encosta em uma obra interativa e é abordado pelo monitor, que informa que não se pode encostar na peça. Uma situação que os dois, no setor educativo de diferentes instituições, já vivenciaram ao lidar com trabalhos históricos, como os de Hélio Oiticica e Lygia Clark, que, por motivos de conservação, perderam seu caráter interativo e se tornaram intocáveis. “A gente fazia isso todo dia. Dizia ‘não pode tocar aqui’ e, diante disso, a pessoa interagia com a gente no lugar da obra”, explicam.

Os cargos de monitoria que exerceram em diversos museus e espaços de arte, onde lidaram com visitantes que levantaram a voz ou se recusavam a seguir as normas da instituição, serviram de substrato para a composição de suas obras.

E a rotina que inspirou a criação da dupla é a mesma com a qual lidam até hoje: como microempreendedor individual, Antonio atualmente é supervisor de ensino no núcleo pedagógico infantil da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Já Jandir é contratado via CLT no Museu Bispo do Rosário para uma jornada das 9h às 18h e para a qual percorre, todos os dias, um longo trajeto de Niterói, onde mora, para a zona oeste do Rio.

“A nossa escola Marina Abramovic de performance de longa duração foi o trabalho assalariado, com escalas onde a pessoa fica horas em pé”, explica Antonio. “A performance não está ligada apenas ao condicionamento do corpo, mas à performatividade social.”

Em suas ações, eles não jogam luz apenas na invisibilidade desses corpos, mas reiteram o paradoxo entre poder e submissão: como vigilantes, podem alertar e repreender comportamentos inadequados, mas são constantemente tratados como subalternos. Algo que a Amador e Jr. Segurança Patrimonial vai esconstruindo, aos poucos, e com humor, em performances silenciosas ou teatrais.

Um bom exemplo é “5 5”, na qual a dupla se utiliza de rádios comunicadores em volume máximo para discutir criticamente a exposição que devem salvaguardar, causando estranhamento pelo ruído e também pela detenção de um saber especializado que dificilmente é reconhecido nesses trabalhadores.

Para a 35 Bienal de São Paulo, eles antecipam que pretendem explorar a transparência dos vidros e as áreas de acesso, como portas e rampas, em mais de dez peças que irão discutir a dicotomia entre lazer e trabalho. Estão confiantes de que sua empresa de vigilância tem potencial para atingir tanto o público da área quanto aquele com menor familiaridade com o mundo das artes. E já esperam os visitantes que irão interceptá-los para saber onde é o banheiro prontos para indicar, com alguma — ou nenhuma — precisão, o caminho.

por Nina RaheSociedade limitada, publicado no Caderno Eu & do jornal Valor Econômico, no dia 15 de agosto de 2023.

A inteligência artificial logo, logo vai nos dar uma rasteira das boas, mas por enquanto ainda podemos vislumbrar resquícios de humanidade em alguns ofícios cuja existência melindra entre contradições e resistências. É o caso do crítico de arte e também do segurança, profissional que inspira a investigação artística de Antonio Gonzaga Amador e de Jandir Jr. Surge daí a empresa de performance Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. Devidamente uniformizados - terno e gravata sempre -, eles vão imprimindo sua marca no mercado ao longo dos anos. A dupla especializou-se na salvaguarda de galerias de arte, mostras, salões, bienais e afins. Às vezes você vai vê-los postados bem diante de uma obra, empatando a apreciação (Sem título, 2016); noutras, é possível encontrá-los mergulhados na leitura de livros (Ler, 2023), olhando fixamente para baixo (Chão, 2023) ou até mesmo de olhos bem fechados durante o expediente (Vigilante, 2016). Tudo para melhor servi-los, senhoras e senhores.

Nessas performances, as armas usadas para defender o patrimônio alheio são o deboche e a ironia, mas o jogo não se restringe ao escopo humorístico. Antonio e Jandir usam o próprio corpo para armar bombas lógicas através de uma presença tensionada; eles minam um campo onde as estruturas de nossa formação vão explodindo sob nossos pés: o racismo institucional, a exploração dos trabalhadores, o precariado, a persistência sinistra da escravidão, ou seja, a manutenção das elites que consomem arte.

Formalmente, trata-se de sobreposição. A Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. tem a expertise de dobrar os espaços onde performa; se a área útil é de cem metros quadrados, dá para chegar tranquilo aos duzentos metros quadrados, ou até mais. No entanto, vale lembrar que esse fenômeno insólito só poderá ser concluído na superfície cerebral do público, que, se não ganhar o terreno adicional, pelo menos vai poder sair de lá dando boas risadas, sem ter entendido a piada.

por Igor de Albuquerque. Texto publicado no catálogo e guia da 35ª Bienal de São Paulo - coreografias do impossível, que ocorreu entre setembro e dezembro de 2023.

'Amador e Jr Segurança Patrimonial' (freely translated: Amador and Junior Institutional Security) is the name of the so-called company of Antonio Gonzaga Amador (1991) and Jandir Junior (1989). The coming months they will present a work at the 35th São Paulo Biennale that they have been performing in different variations since 2015. I first saw them in 2016, at an exhibition at the Museu de Belas Artes of Rio de Janeiro: two security guards in suits, at first glance indistinguishable from the other guards. But one of them stood in front of a work of art, obstructing my view.

Their performance lasted the whole day; taking turns the artists shielded the painting Gioventú by Eliseu Visconti with their bodies. I tried to look at the painting, thinking it had to be a very special work to be guarded in this way. But most of all, I wondered how I could relate to the person standing there, demanding my attention in an unusual way. It reminded me of all those other people whose work requires them to be present, but at the same time be somewhat invisible to those around them: cleaners, taxi drivers, the doorman in the building where I live....

por Tanja Baudoin. Excerto do artigo ‘Our work experience has prepared us for this’ – in conversation with Antonio Amador and Jandir Junior, publicado no portal Metropolis M, em 2023, em inglês e holandês

‘Amador e Jr Segurança Patrimonial Ltda.’ (vrij vertaald: Amador en Junior Institutionele Beveiliging) is de naam van het zogenaamde ‘bedrijf’ van Antonio Gonzaga Amador (1991) en Jandir Junior (1989). De komende maanden presenteren zij op de 35ste Biënnale van São Paulo een performance die zij sinds 2015 in verschillende variaties uitvoeren. Ik zag ze voor het eerst in 2016, bij een tentoonstelling in het Museu de Belas Artes van Rio de Janeiro: twee beveiligers in pak, op het eerste gezicht niet te onderscheiden van andere suppoosten. Tot een van hen wel erg lang recht voor een kunstwerk bleef staan.

Dat ging de hele dag zo door: om de beurt schermden de kunstenaar het schilderij Gioventù van Eliseu Visconti af met hun lichaam. Ik probeerde het schilderij nog te bekijken; het moest wel een heel bijzonder werk zijn om op deze manier bewaakt te worden. Maar vooral vroeg ik me af hoe me te verhouden tot de persoon die daar op ongewone wijze mijn aandacht trok. Ik dacht aan al die andere mensen wier werk van ze vereist dat ze tegelijkertijd aanwezig én onzichtbaar zijn: schoonmakers, taxichauffeurs, de portier in het gebouw waar ik woon…

por Tanja Baudoin. Excerto do artigo ‘Onze werkervaring heeft ons hierop voorbereid’ – in gesprek met Antonio Amador en Jandir Junior, publicado no portal Metropolis M, em 2023, em inglês e holandês

A dupla Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. investiga justamente o espaço museal e os modelos hierarquizantes das estruturas de trabalho, olhando em especial para os profissionais da segurança. Ambos os artistas adentraram o campo artístico trabalhando nos setores educativos e, por terem se atentado às contradições presentes, desenvolveram ações questionadoras, em que se apresentam vestidos como profissionais da segurança, com roupa social preta, sapatos baixos e fechados. Em suas performances, deslocam e modificam as expectativas e imagens sociais desenhadas para o perfil desse cargo. Além de desafiar os processos de controle dos espaços, a dupla questiona as inúmeras horas de trabalho mal remuneradas e os julgamentos dos diferentes públicos diante de corpos racializados submetidos a dores, silenciamentos, cansaço e traumas psíquicos.

Na performance A rigor, por exemplo, os artistas utilizam chinelos de dedo, em vez dos tradicionais sapatos baixos escuros para compor o uniforme de segurança. Considerado um calçado inapropriado para o desempenho de tal função, o chinelo também é alvo de preconceito social, tido como um produto barato e popular. O benefício de seu uso não conta: os chinelos permitem relaxar os pés, amenizando o cansaço por longas horas em pé. Nessa ação, os artistas aproveitaram para referenciar a apresentação de Heitor Villa-Lobos, que, durante a Semana de Arte Moderna de 1922, por um problema de saúde, realizou o concerto utilizando chinelos e atraiu críticas e comentários. Assim como Villa-Lobos quebrou os protocolos esperados, Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. ironizam o conservadorismo que ainda nos circunda.

 

Na crítica do sistema das artes, a dupla trabalha habilmente com a ironia, usando-a como uma tecnologia comunicativa que provoca inquietação e drible discursivo; com práticas performáticas e intervencionistas, altera as rotas esperadas e traz ao centro importantes debates sobre os tratamentos subalternizantes presentes nas artes. Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. articulam os campos da arte-educação, da produção artística e da crítica social, interagem com setores pouco privilegiados, como o da segurança, e olham para o espaço expositivo sem a máscara da romantização e do encantamento superficial, revelando as desigualdades de tratamento.

Para "A parábola do Progresso", a dupla se debruçou sobre a história do edifício que abriga o Sesc Pompeia, antiga fábrica de tambores industriais e geladeiras que se tornou um dos ícones arquitetônicos e patrimoniais da cidade, espaço de lazer e cultura. Nessa passagem de uma função para outra, pouco se preservou a respeito de seus trabalhadores. Instigados por essa invisibilidade, Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. propõem a redefinição desse território trabalhista, implantando uma placa de metal com o logo de sua empresa fictícia em uma das paredes do edifício, reorganizando simbolicamente as estruturas, a posse e suas nomeações.

por Luciara Ribeiro. Excerto do texto Trabalho, gênero e arte: rompendo representações da precariedade e da subalternidade, publicado no catálogo da exposição A parábola do progresso, que ocorreu no Sesc Pompeia entre 2022 e 2023.

 

 

por Netão Ribeiro, sobre nossa apresentação no 41º aniversário do Centro Cultural São Paulo, no dia 13 de maio de 2023, onde apresentamos as performances Cofre, Sem título e Por gentileza.

Menino, eu sonhei com você fazendo performance esses dias. Muito louco. Ai, mandar em áudio, porque realmente foi um negócio meio louco. Tipo, você tava fazendo uma performance. Não sei onde, sei que era num lugar aí, bem movimentado. E você ficava em frente a um espelho, você atuava como segurança olhando pro espelho. Como se você tivesse vigiando o ambiente e você mesmo também, sabe? Era muito doido. Aí, tipo, alguém parava você pra pedir informação e você respondia a pessoa olhando pro espelho, e não pra pessoa. Era muito doido, muito doido. Aí eu falei, vou parar de ficar vendo o Instagram, porque ficar vendo essas doidera de Jandir... porra, já tá até ficando até no meu sono.

por Beatriz Dias. Transcrição a partir de mensagem de áudio encaminhada via WhatsApp.

Dois homens negros, vestidos de terno preto e gravata azul marinho, descansam em um sofá estofado. As pernas deles estão esticadas, os pés para cima. Eles estão descansando. Entram, então, no mesmo espaço, duas mulheres brancas. Elas olham a cena, e prontamente uma diz para outra, assustada: ‘Ih amiga, acho que a gente entrou no lugar errado, vamos sair daqui’.

Mas elas estavam no lugar certo. As visitantes foram até aquele espaço, a Pivô, associação cultural em São Paulo, para conhecer os ateliês dos artistas residentes na instituição. Os dois homens que viram são Jandir Jr e Antônio Amador, artistas do Rio de Janeiro, que desde 2015 atuam juntos realizando performances de longa duração como seguranças de espaços culturais.

Vestidos como vigilantes, eles não cumprem os códigos feitos para esses trabalhadores no museu. Subvertem, nas performances, regras que – ditas ou não ditas, marcam a rotina de um segurança, como olhar sem desviar para as obras de arte, tirar foto dos visitantes quando solicitado, manter-se sempre a postos. No conjunto de gestos que elaboraram nesses mais de 8 anos, eles criaram uma espécie de “contra-manual”. Enquanto seguranças, durante aberturas, ou dias de exposição, permanecem de olhos fechados; posicionam-se dentro de uma poça de água dentro do museu; pedem a visitantes que tirem uma foto deles em frente a uma obra de arte; participam de coffee breaks; ou então, simplesmente, colocam os pés para cima em público – relaxam.

É na criação e execução destes gestos que a Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda, como definem suas ações performáticas, atua. Eles tornam evidentes relações de poder e trabalho do setor cultural, atravessadas por raça e classe. “Eu entendo que ali nos ternos, na segurança das instituições culturais, a gente tem um símbolo que corresponde a toda uma cadeia de trabalhadores/as da cultura que se veem em posições precarizadas e, até diria, racializadas”, explica Jandir, em entrevista por chamada de vídeo ao Nonada Jornalismo.

“Tem uma linha de performance muito difundida através da Marina Abramovic, que fala das performances de longa duração por um viés talvez mais ‘transcendental’. Estamos cientes desse legado, mas nossa performance de longa duração vem embasada pela experiência do corpo trabalhando em posições cansativas e exaustivas”, comenta Jandir, artista e educador.

Para Antônio, a escolha de atuar como esses profissionais têm relação com o desejo da dupla de refletir sobre as hierarquias, violências e relações comuns aos espaços de arte. “Qualquer Museu ou Centro Cultural, na experiência que a gente tem, vai ter um segurança. Nem todo lugar vai ter monitor, mas todo lugar vai ter essa pessoa que a gente identifica que pode pedir informação, por exemplo. Foi uma forma que encontramos de pensar o que pode ser o comum a todas essas instituições culturais”, reflete Antônio, que é também Doutorando em Artes da Cena na Escola de Comunicação pela UFRJ.

Um dos serviços da Amador e Jr. Segurança Patrimonial LTDA oferece é colocar, com muita ironia e criticidade, relações entre instituição, visitante, trabalhador e sistema de arte em evidência. Confira a entrevista completa:

por Anna Ortega. Prelúdio à entrevista concedida pela empresa à Anna Ortega, divulgada com o título Seguranças-artistas quebram quarta parede de espaços de arte e evidenciam trabalho precarizado no portal Nonada Jornalismo.

Assim, logo ao adentrarem pelas salas e corredores do museu os visitantes se deparam com seguranças circulando confortavelmente de sandália de dedo. A performance ‘A Rigor’ realizada pelos artistas Amador & Júnior. O trabalho tematiza a figura dos seguranças contratados para vigiar ou zelar por espaços e patrimônios. No Brasil o segurança está geralmente associado a imagem de homens negros, altos, fortes e “de boa aparência” vestidos a rigor. A performance traz à cena múltiplas questões relativas ao trabalho, a produtividade, a disciplina e a função do corpo do homem negro na manutenção de uma ordem social que o segrega e o mata diariamente.

 

Para os artistas: “seguranças à vontade e sem precisarem se preocupar com seu desgaste físico irão, a rigor, ter sua performance aumentada”.

 

Os pés à vontade – que remete a determinadas obras modernistas problematizam estereótipos racista ao se contrapor a ideia do selvagem e do incivilizado ao mesmo tempo dialoga com valores da nossa ancestralidade afro-pindorâmica.

por Stanley Vinicius. Excerto do texto Missão afropindorâmica aporta no Museu da República, publicado no catálogo da exposição O que restou de ontem: intervenções no Museu da República.

 

Uma outra instância do corpo escancarado porém historicamente escamoteado pode ser encontrada no trabalho Telhas, de Amador e Jr Segurança Patrimonial. Em horário comercial, Antonio Amador e Jandir Junior se alternavam para proteger a vitrine de uma goteira. O propósito do corpo ali era sua instrumentalização extrema.

 

Recuperemos a ideia de uma indumentária da transparência. Vestidos com o traje padrão de seguranças (camisa social branca, paletó, calças e sapatos pretos), a dupla de artistas propõe um choque radical entre visibilidade e invisibilidade. Amador e Jr se interessam por toda a rotina dos corpos não evidenciados, dos corpos cujas atividades incluem não serem vistos.

 

A ampla gama de serviços oferecidos pela Amador e Jr Segurança Patrimonial (como os próprios artistas defininem suas ações performáticas), se refere precisamente a essa gestão invisível do espaço expositivo, a praxis dos seguranças.

 

Em Telhas, o corpo dos artistas é o próprio anteparo para o capitalismo, para a institucionalidade, para o patrimonialismo. Sem se dar conta, o público (que no caso do arte_passagem é igualado ao passante, ao cidadão, de forma a inscrever o olhar da arte dentro do mesmo pacto social que impera fora dela) reitera a violência da obra. O cinismo incômodo com o qual observamos a obra nada mais é que mais uma transparência da barbárie.

por João Paulo Quintella. Excerto do texto Dentro da Transparência, publicado na décima primeira edição da revista Dobra.

 

 

Depoimento dado pelo I Seminário Internacional de Mediação Cultural do Sesc RJ, que ocorreu no Sesc Flamengo, no Rio de Janeiro, em 2022.

 

Amador e Jr. Segurança Patrimonial LTDA atua por meio de serviços de salvaguarda dentro de ambientes artísticos. Compondo obras de longa duração, que remetem a jornadas de trabalho, Amador e Jr. criam rotinas de ações e serviços em espaços culturais em que a ideia de “performance” aparece tanto quanto linguagem artística como quanto um desempenho de maneira eficiente e eficaz de um trabalho laboral. Valendo-se de uma visualidade e de indumentárias que de algum modo se institucionalizaram como roupas atribuídas a pessoas da segurança patrimonial de museus e galerias, a dupla elabora um complexo repertório de ações que dobra o próprio sentido da salvaguarda – a exemplo de serviços em que ambos ficam de olhos fechados perto de uma obra que deveriam vistoriar ou em outros em que se fixam na frente de uma obra não permitindo que o público visitante possa ver o trabalho exposto de forma completa.

por Tiago Sant'ana, responsável pelo acompanhamento curatorial do Ciclo III do Pivô Pesquisa 2022.

 

Se você está lendo este texto crítico, provavelmente não é alguém que anda pelas ruas de pés descalços. Caso esteja aproveitando a ocasião de abertura - ou qualquer outra apresentação-ativação da mostra - para a leitura, encontrando amigos, tomando cerveja, com certeza não estará descalço. Mesmo assim, é possível que a maior parte dos interessados e curiosos desta exposição, em suas datas menos festivas, sejam transeuntes descalços do centro de São Paulo.

Essa tola e triste ironia não é necessariamente requisitada pelos trabalhos apresentados por Renata Lucas e Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. Ela surge numa observação a contrapelo de um contexto urbano específico e concreto, repleto de um convívio social agitado, no qual a mostra se realiza: a ocupação de uma vitrine de rua, em plena Praça da República, no shopping térreo de um dos seus mais celebrados edifícios. Certas operações artísticas da reunião desses artistas apontam e instigam determinados marcadores sociais, ainda que corriqueiros, referidos em traços básicos de consumo - como um tênis ou um uniforme, por exemplo.

 

Nos entrelaçamentos poéticos deste encontro, Lucas e a Segurança Patrimonial ltda. se interessam sobre as condições de visibilidade e invisibilidade que incidem em estruturas e posicionamentos sociais, provocando situações que aludem ao absurdo preexistente em determinados espaços de poder - principalmente aqueles mediados pelo dinheiro, valor agregado e status social embutido.

Como se estivessem em campo adversário, jogando contra esse perverso que habita o neoliberalismo tardio, o que os artistas fazem é dobrar a aposta com a real. A vitrine torna-se uma metáfora ideológica: o dispositivo que separa sutilmente os sujeitos de seus objetos de desejo, o material quase imperceptível que forja as fantasias de uma observação que, no limite, se destina ao mercado. Rente à rua, uma simples fatia de vidro que divide o espaço interno da assepsia publicitária e o imponderável do lado de fora torna-se brutal.

 

Em sua obra, Renata Lucas dispõe o corpo de manequins despidos através do vidro, e somente nas partes que ficam para o lado da rua, uma perna e uma mão, surgem produtos como meias, tênis, pulseiras e anéis. Através desse ato, o que está colocado é a inversão entre público e privado, ou o vislumbre de algo além dessa dicotomia, onde o que é valioso está fora e o dentro é vazio, com os objetos para fora da vitrine embaralhando os mecanismos de desejo e valor. Não deixa de ser um convite à transgressão.

 

Os serviços propostos e prestados por Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. devem provocar os momentos institucionalizados mais significativos desta exposição. Por não se tratar de uma ação de camuflagem no espaço expositivo, o segurança que leva goteira na cabeça para evitar que o chão se molhe demais acaba numa espécie de palco. Todos poderemos contemplar a performance com o devido distanciamento, o que a tornaria ainda mais artística aos calçados mencionados no começo deste texto. O foco de atenção aqui é para com os corpos, mas que corpos afinal? Fictícios ou não? O que os descalços então, poderiam se perguntar é: o que acontece no fim da tortura? Até onde vai ou qual deve ser o ponto de virada, o quanto de revolta precisa se acumular até irromper num revide?

 

Expostas ao caos e ao imprevisível, as obras de arte desprevenidas podem ser roubadas ou furtadas, mesmo vandalizadas, seja por fetiche ou por necessidade básica. O ato não deve ocorrer na abertura ou encerramento da exposição, quando você, talvez, estará lendo este texto crítico. E o segurança, no aspecto mais subliminar da sua performance, mesmo oprimido, estará lá outros dias para vigiar qualquer sanha - de calçados e dos descalços.

 

Pode ser que na calada da noite, em uma hora de descuido, um assalto anônimo aconteça, fechando um ciclo de estranhamento, apropriação, ativação e, principalmente, um gesto simbólico de restituição que Renata Lucas e Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. precisarão ser informados.

por Felipe Molitor. Texto Pega e leva, publicado no folheto sobre a presença de nossa empresa no arte_passagem, junto à intervenção da artista Renata Lucas, no Edifício Eiffel, São Paulo, SP, em 2022.

 

Carlos Matos: “Eu achei muito interessante a performance que foi feita anteontem, eu acho. Porque eu fiquei pensando assim: foi curtinha, né? Foi coisa de vinte minutos. E eu achei muito interessante porque, além de vigiar a feira, eles também se vigiavam, né? Se vigiavam como corpos suspeitos, como corpos racializados. Enfim, acho que é uma potência que você vê e que você não teria, por exemplo, se a feira fosse presencial, né? Eles não estariam se vendo.”

Marcel Diogo: “Eu lembro que, durante esse nosso processo, eu recordei de um trabalho do Paulo Nazareth, que é um cartaz, uma chamada, em que ele convoca homens, negros, altos, fortes, mal encarados pra trabalharem de seguranças, vigiando outros homens, negros, altos, fortes, mal encarados. Então fala desse lugar, desse ciclo de violência. Também desse uso, inclusive, das próprias pessoas negras como algozes de outras pessoas negras, né? Então é muito interessante, porque o Amador e Jr... eles ocupam esse lugar da vigilância de forma muito irônica, assim, né? Eles vigiam a feira, eles vigiam as obras, eles se vigiam. Então é um lugar que, pensando, assim, em resumo, embora seja um trabalho impossível de resumir, mas pensando assim em um resumo, tá nesse lugar da impossibilidade de liberdade, né? Da impossibilidade de ser livre.”

por Carlos Matos e Marcel Diogo. Excertos transcritos e adaptados a partir da conversa entre os artistas, feita em ocasião da Feira Equinox, em parceria com a Galeria Diáspora, no dia 21 de setembro de 2021, às 19h, por vídeoconferência. Os comentários dizem respeito à performance CFTV.

“Eu falo que você se parece muito com o Defante, e até a tua arte parece um pouco. Mas o legal é que você, ao contrário dele, você não se submete a fazer algo que tenha um começo, meio e fim, pelo menos nessa performance. E sim a um momento cotidiano, claro, que com mudança, né... muito legal que vocês ficam lá vendo, como se estivessem vigiando a galeria de arte online... mas nada acontece! E a gente fica na expectativa, sempre, porque a gente sempre tá achando que vai acontecer alguma coisa. E acaba! (risos) Vinte minutos! Acaba! (gargalhadas) Cara, isso foi muito genial. Ficou eu e Bia aqui, olhando aqui por um bom tempo aqui pra tela, e a tela avisando que tinha acabado, no YouTube. (risos) Ficou eu e ela aqui, esperando. Nada acontece! A gente: “Ah, não é possível!” Eu fiquei carregando a página pra ver se vocês iam voltar. Pra tu ver como foi o negócio! Depois a gente ficou: “caralho, o que que aconteceu?” (risos) Muito foda, muito foda.”

Por Renato Gadioli. Transcrição de um excerto da mensagem de voz enviada para Jandir Jr. no dia 19 de setembro de 2021. Os comentários dizem respeito à performance CFTV, realizada na Feira Equinox, em 2021.

 

No terceiro capítulo, com um jogo irônico de imagens-palavras, denúncia, seriedade e garantia de compromisso profissional, Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. dão um susto ao pé do ouvido, uma rasteira. Na academia, nas instituições culturais, no público desavisado, na piscina. Entre [não] poder rir, vigilância, controle de corpos e afeto, os bastidores hierárquicos do sistema da arte e da sociedade vão sendo desvelados em Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nove fotografias, um misto de performance, educação, mediação e [in]segurança patrimonial.

por Mara Pereira e Renata Sampaio. Excerto da apresentação do décimo oitavo Cadernos Flacso: artes visuais e educação [2021], em que as organizadoras do número apresentam o capítulo que nossa empresa foi convidada a escrever.

 

“Portfólio” consiste na apresentação de uma série de trabalhos da dupla de artistas que dão vida à empresa Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. As experiências obtidas nos setores educativos de museus contribuíram para a elaboração das performances, dado que partem das observações e vivências compartilhadas neste espaço para desenvolver suas criações. Uniformizados, provocam estranhamento no público por fugirem de um comportamento esperado de seguranças, às vezes de modo sutil, outras vezes com transgressões. Além dos serviços, como os próprios se referem às ações, no site oficial também é possível consultar todos os “clientes” que os contratam até hoje, sendo o termo usado para se referir aos curadores das exposições de que participaram. Sem obedecer a uma ordem cronológica, o portfólio comporta primeiro uma imagem com o título e descrição da proposta, seguido por uma outra com registro fotográfico e legenda. Apesar da singularidade de cada ação, todas se unem por trazer críticas às instituições, ao sistema das artes e a precarização do trabalho.

por João Paulo Ovídio. Texto presente no catálogo da exposição Arte como trabalho: estratégias de sobrevivência dos trabalhadores das artes [2021]

 

Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. é um duo de artistas que, por meio da linguagem da performance, atua no contexto da produção contemporânea em artes visuais, sobretudo através de intervenções, linguagem pela qual integram a 30ª edição do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, com um provocador conjunto de proposições realizadas no espaço expositivo desta que é uma instituição reconhecida por sua permeabilidade aos mais diversos públicos, motivo pelo qual este conjunto de ações arvora-se enquanto uma série de ativações da própria mostra.

 

Antônio Gonzaga Amador e Jandir Júnior são artistas com robusta atuação também no campo educacional, com ampla experiência de mediação em contextos museológicos. Sua práxis estético-política é dedicada, em larga medida, ao desenvolvimento de ações contestatórias, cujo corpus são seus corpos, submetidos a situações heterodoxas que, a um só tempo, espelham e distorcem protocolos e procedimentos que têm lugar nas dinâmicas de trabalho instauradas pelo sistema operativo das artes visuais: agem como que prestando serviços de vigilância em exposições de tais instituições.

 

A forja deste binômio “artista-segurança”, por si, já é capaz gerar um curto-circuito no ordenamento de poderes que constituem a hierarquia econômica e política dos espaços dedicados à arte contemporânea, hoje mundializada em seus métodos e práticas libertárias apenas no discurso. Estes postos de trabalho, diametralmente opostos em seu cerne, no que concerne ao lugar de fala, amalgamam-se num enfrentamento à impossibilidade da enunciação dos grupos desfavorecidos na hierarquia estratificada, e estanque, de nossa rígida conformação sóciocultural classista, racista e machista.

 

Aos prestadores de serviços de segurança patrimonial – força de trabalho geralmente composta por funcionários terceirizados, subcontratados via empresas que lucram ao vender como produto o que a esfera pública deveria oferecer como insumo – cabe, nesta hierarquização pétrea, o papel da imobilização. Pessoas submetidas a cargas-horárias de trabalho maçante, por sua impossibilidade de expressão nos mais diversos sentidos, nas quais seu labor é, antes de tudo, e mais que nada, impor limites. A limitação que devem empregar aos espectadores é, portanto, notadamente não emancipadora.

 

O patrimônio (termo que em sua constituição carrega o radical do patriarcalismo, contestado pela Museologia Social a partir da criação do conceito de “Fratrimônio”) histórico, artístico e cultural – sobretudo em nações erigidas com base no genocídio e no epistemicídio dos povos originários americanos e de matriz afro-brasileira – atualiza-se, dessa forma, enquanto maquinário colonizador em plena metrópole auto-proclamada como civilizada, já a passos largos do princípio do século 21: subalternizamos, uma vez mais, índios, negros e pobres, mas, desta vez, entre tantas outras, em nome da preservação da arte.

 

As intervenções que Amador e Júnior instauram nos espaços expositivos, que integram dispositivos de escrita da história e leitura da memória, deslocam o labor destes indivíduos, severamente normatizados pelo dever do silêncio, da atenção, da postura, entre tantas formas de domesticação dos corpos, majoritariamente imposta aos não brancos. Profissionais que tudo devem observar, mantêm-se de olhos fechados. Estão de costas para as obras. Estão sentados de frente para paredes. Estão mergulhados nas piscinas. Exaustão.

 

Nas palavras dos artistas: “As condições de trabalho são pautas dentro da própria criação artística. O que fazemos como trabalho, o que nos exigem para fazer esse trabalho, como será nosso comportamento, o que se espera dos nossos corpos, como as demandas nos atingem fisicamente e mentalmente. Isso e outras coisas são flechas que nos apontam. Os trabalhos artísticos aqui são uma contraflecha. Não necessariamente apontada para quem nos apontou antes, mas talvez tangente. São respostas para isso, mas uma resposta que não é para o trabalho assalariado e suas relações. A resposta é para outro lugar. Alguns sabem que lugar é esse, outros não e alguns ainda querem inventá-los. Mas todos emergem desse labor”.

 

Como crítica institucional e enquanto cultura organizacional, enquanto discussão estética e como debate político, são poderosas as intervenções certeiras que tais arcos lançam como disparos circulares, cujo ponto de partida e chegada é o próprio lugar no mundo. Dar a ver as estruturas de poder que alicerçam o sistema que integram enquanto emissores e receptores – duplamente mediadores, como artistas e enquanto educadores – é apontar para o passado e o futuro ao mesmo tempo: homens-estátuas que são, em si mesmos, berço do devir e ruína do porvir. Vivo-morto e morto-vivo, seguem respirando.

 

O labor é configurado por sua proposta como uma resposta ao próprio mecanismo de domínio. Esgarçando os limiares do trabalho artístico, por meio da visibilização dos invisibilizados, produzem experiências outras para além da estafa física e mental, ou o tédio do estresse profissional, como apontam em sua proposição. Falam de trabalho produzindo outras formas de trabalho. Laboram e elaboram por meio de, e em direção a, seus próprios corpos. Sobre e contra suas presenças, permanências e impermanências. Firmando, afirmando e reafirmando suas existências; negando-as. Corporificam o grito e o sussurro.

por Leno Veras. Texto Corpus-Corpos, publicado no catálogo da 30ª Edição do Programa de Exposições – Centro Cultural São Paulo: Mostra 2020.

 

O ato do trabalho, nomeadamente dos prestadores de serviço de segurança patrimonial, por sua vez, constitui matéria criativa e crítica da dupla Amador e Jr., que intervém no CCSP com uma série de performances que replicam e subvertem procedimentos laborais das instituições de arte. A dupla se faz dublê desses trabalhadores, essenciais ao sistema das artes, embora frequentemente mal pagos, terceirizados, não reconhecidos, discriminados e invisibilizados. Não por coincidência, são eles e elas, em sua maioria, pessoas negras, residentes em territórios afastados das galerias que, paradoxalmente, o asseguram com o próprio corpo.

por Hélio Menezes. Excerto do texto Para a dívida impagável ser paga, publicado no catálogo da 30ª Edição do Programa de Exposições – Centro Cultural São Paulo: Mostra 2020.

 

Tem o trabalho de uma dupla, de uma empresa, Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., [...] que vai trazer uma outra discussão; que é uma discussão em torno, justamente, dessas precariedades ao qual determinados corpos estão submetidos dentro desse espaço [das instituições de arte]. [...] É uma experiência que Amador e Jr. vão adquirir a partir de suas experiências como educadores, mas a partir de uma experiência de educador que é também uma experiência híbrida e que é [...] decorrente de um outro tipo de precarização, que é quando educadores precisam ocupar, ao mesmo tempo, [a] função de conceber, pensar e articular processos educacionais mas também estar em uma posição quando estão no espaço expositivo. Que é uma posição que se aproxima de uma guarda patrimonial, de uma guarda dos objetos, de uma experiência que está muito ligada e muito voltada para um controle da experiência do público dentro desse espaço. 

por Gleyce Kelly Heitor. Excerto transcrito e adaptado a partir da segunda aula do primeiro módulo do curso de arte e educação proposto pelo 2º Salão Nacional de Pequenos Formatos de Britânia, ministrada no dia 8 de outubro de 2020, às 19h, por vídeoconferência.

 

[...] como um jogo de espelhos infinitos, Amador e Jr Segurança, nos convidam a entender que o poder da modernidade está erradicado em vigiar e castigar.

por Morella Jurado. Texto presente no 2º Salão Nacional de Pequenos Formatos de Britânia, que ocorreu no website https://museu.io/sapf, a partir do Museu de Arte de Britânia, situado no município de Britânia, no Estado de Goiás, em 2020.​​

 

Lembro quando os convidei para a exposição no Morro da Conceição e o Antônio primeiro deu aquela resposta meio automática, com um linguajar que beirava o tele-marketing. Na época, fiquei muito intrigada com aquilo, porque no meio da arte forçamos um excesso de informalidade que no fundo mascara não só alguma precariedade das relações de trabalho, como também expõe uma falta de profissionalismo. Quando li a resposta, pensei que aquela ironia provocava muito toda essa fragilidade envernizada. Quer dizer, parece que a performance continua acontecendo mesmo nos bastidores, na negociação com o curador e com as instituições.

por Pollyana Quintella. Excerto do texto Do precariado e além: conversa com Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., publicado em a palavra solta, no dia 6 de agosto de 2020.

 

Isso me leva a um exemplo carioca, ao trabalho de performance da dupla de artistas Antonio Amador e Jandir Jr., que oferecem vários serviços em contextos de exposições e inaugurações. Se você mora no Rio, provavelmente, já os viu em algum lugar de arte. Eles se vestem como guardas de segurança e ficam no canto do espaço de exposição ou perto de uma obra de arte. Eles não fazem muito, mas estão presentes. Os verdadeiros guardas são treinados para intervir quando necessário; eles têm capacidade de agir. Mas, na maioria das vezes, esse serviço implica o estado de espera; estarem sempre prontos para uma ação que nunca chega. No trabalho performático de Amador e Jr., essa presença é ainda mais esvaziada, já que existe menor chance de intervenção. A presença deles lembra os muitos corpos que ocupam o Rio dessa maneira, desde porteiros a militares. Esses corpos, apenas mediante sua presença, já fornecem uma sensação de segurança e é quase secundário se eles vão de fato agir. Sabemos também que, no contexto atual da arte, sua presença é muitas vezes, dolorosamente, ausente, pois o Estado é cada dia menos capaz de fornecer segurança básica para museus e instituições. Aqui, Amador e Jr. chegam. A dupla se apresenta como uma empresa, chamado Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., contextualizando explicitamente suas ações como uma forma de trabalho profissionalizado. Eles imitam ou simulam um sistema existente, para torná-lo teatral, performá-lo, e repetem, por esse motivo, o trabalho em uma variedade de contextos, exigindo nossa atenção para as presenças que tantas vezes negligenciamos.

por Tanja Baudoin. Excerto do texto Maneiras de trabalho e o artista como fornecedor de experiências, publicado na revista teteia um.

Mas então qual a provocação da dupla de performers Antonio Amador e Jandir Júnior em Vigilantes, como dois corpos vigilantes estáticos e de olhos fechados? Se a função dos vigilantes fica apagada pela aposta de seus olhos fechados, qual seria a resposta do fruidor aos seus corpos e aos objetos presentes no museu? Como pensar e experimentar um olho que nega a organização dos objetos na parcialidade de mundo que o museu nos oferece? O Museu do Ingá exibe parte do seu acervo sob parâmetros estabelecidos da museografia, sabemos que tal padrão prioriza dimensões políticas, geográficas e cronológicas: não há como negligenciar o fato de que existe uma história sendo imposta quando a perspectiva é a da colonialidade. Mas a história pode ser tratada fora de um fluxo desejante na contemporaneidade? Não seria uma das apostas de Amador e Jandir a de que é preciso que enfrentemos os arranjos históricos que o museu desenha com uma ação de deslocamento, ou seja, como um rearranjo próprio de cada olhar em sua singularidade?

 

Mesmo que ostentem terno e gravata, que estejam eretos, o fato de problematizarem sua funcionalidade como vigilantes, faz de algum modo seus corpos remeterem a um totemismo, que infere certa carga ritualística a suas figuras. Passamos por uma convocação ao âmbito do estranho e é neste diapasão que Amador e Jandir são vertidos na recepção: o que sobra dos performers que não nos dão seus olhos vigilantes, senão seus corpos em estado puro de insistência de vida? E é desse lugar de estranhamento que a instância institucional é visada. Lembramos que o Museu Histórico nos dá notícia da existência do modo processual em que o Estado, como aparelho estatal na modernidade, é construído a partir de problemas que o atravessam e “que consiste na condução da conduta de indivíduos e da população no interior de um quadro jurídico e com os instrumentos de que dispõe o Estado”.
 

por Dinah de Oliveira. Excerto do texto Linhagem readymade: zonas liminares, publicado no Catálogo da exposição INGÁJÁ: intervenções no Museu do Ingá [Editora da Escola de Belas Artes, 2020]

 

Na performance 360º, de Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., invisibilidade e vigilância convergem. De costas um para o outro, os dois performers vestidos como seguranças podem apreender o ambiente todo e garantir sua visão completa, afinal é esperado nos ambientes institucionais a vigilância: o guarda deve ver para alertar e repreender comportamentos inadequados, que podem pôr em risco a integridade das obras. Por outro lado, a própria performance corre o risco de desaparecer aos olhos dos visitantes. Assim como o mobiliário expositivo, existe um acordo tácito de tomar os vigilantes por invisíveis.

por Ana Roman e Marcelo Amorim. Excerto do texto Antemanhãs, publicado no Catálogo da Mostra de Arte da Juventude  [Sesc Ribeirão Preto, 2019].

 

como dois seguranças

 

Eles dois estão avessos aos visitantes nesta situação em que, parados em uma porta com olhos fechados, todas as pessoas passam por eles. Vestem uniformes de segurança, mas, sabemos que não seriam contratados nessa condição de não abrir os olhos. É no entanto dessa condição que pertence o trabalho artístico - a de não poder salvaguardar a todo custo; e o nível e o período em que se dá a invisibilidade e a visibilidade de uma ação. A frequência de um ato criativo. A duração do tempo: estender ou não as situações adversas e abusivas. AA e JJ estavam parados com as cabeças viradas para a parede em outro momento, na abertura de uma festa, quando todes estavam comemorando um carnaval. (sonhei que saíam bois imensos com chifres do mar e engoliam um homem. mas esse homem não morria. ele amedrontava toda a cidade e as bruxas que tinham tentado matá-lo estavam sendo perseguidas)

por Jandir Jr. e Tadáskía [na época, ela assinava como max wíllà morais]. Excerto do texto átimo de criação e tempo no museu-trabalho-e-trabalha-44h-semanais-e-, publicado em BUALA, no dia 28 de agosto de 2019.

 

Então meus caros jandir e antonio. A pergunta interessante que vocês poderia fazer, tem haver com a relação que as instituições, os curadores, as pessoas que contratam o serviço de vocês enquanto artistas, eles incorporam o trabalho de vocês dentro da instituição. Porque o trabalho de vocês tem uma perspectiva que é de crítica institucional e, também, de uma perspectiva de racialização dos corpos no processo de trabalho. Então de que forma quando vocês são contratados pra realizar uma prestação de serviço artística, digamos assim, isso reverbera, penetra, dentro da instituição, não só como uma agenda progressista, de uma pauta que está vigente no mercado de arte, que são as relações raciais, inclusive de trabalho racializado. Porque não são só vocês esses corpos que estão prestando esse serviço, mas existem os corpos históricos que prestam serviço de segurança nos espaços e outros corpos que prestam outros serviços também. Então de que forma esses curadores, essas pessoas que contratam vocês, eles pensam quando eles chamam vocês, quando, enfim né, vocês são convidados para esses espaços. Quais são os tipos de políticas das instituições pra que não seja só uma passagem pra um público específico de arte, mas que isso, de alguma forma esteja dentro da própria política da instituição assim. E perguntar mesmo assim pros curadores: qual é a intenção deles em chamar vocês. Até onde vai essa crítica que vocês trazem no trabalho de vocês pra dentro da instituição? Se é só a partir de uma relação específica de arte contemporânea. Específica, crua e branca, inclusive, de arte contemporânea e performance ou se de fato tem algum tipo de aprofundamento da questão de uma prática de vida social assim, né. Pensar museu é pensar vida, é pensar sociedade, então de que forma isso, esse convite, é feito e de que forma ele é assimilado para as instituições.

por Priscilla Souza. Um excerto desse depoimento foi utilizado livremente, sem menção à autora, pela equipe de editoração do Catálogo da Mostra de Arte da Juventude [Sesc Ribeirão Preto, 2019].

 

Os artistas vão circular no meio dos convidados, de terno. A ideia é provocar um estranhamento. Fazer pensar.

por Fernanda Graell, na reportagem Um Programão de arte e esporte em Queimados, na Baixada Fluminense, veiculada no RJ TV 1ª edição, na Rede Globo de televisão, no dia 23 de março de 2019.

 

(...) vale a pena ressaltar uma geração de jovens artistas visuais no Rio de Janeiro – ainda que de origens diversas, mas sobretudo relacionadas com as bordas da cidade – cujas produções estabelecem zonas de contatos com os territórios dos serviços de base, e sendo tod_s negr_s, atravessad_s pelas racialidades colonizadas. Além de mim, trato mais especificamente de nomes aqui já citados e com quem venho estabelecendo diferentes parcerias: com a Aline Besouro que tem toda uma produção que se volta pra costura, pra impressão, pra troca, pro comércio, pro rolo, pra muamba, das peças que produz; com o Jandir Jr., que ao lado de Antonio Gonzaga Amador, vêm produzindo uma série de ações que partem das relações entre conservação e fruição das obras em espaços institucionais das artes por meio da figura e do ofício do segurança, sob o título Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda; com Lyz Parayzo, que ora se apresenta como a putinha terrorista e ora como a manicura, adotando este serviço sobre as unhas como um trabalho de pintura, além de sua produção ligada à ourivesaria e com Rafa Éis, que têm uma série de trabalhos que se relaciona com o ofício do pedreiro e gestos que vão ao encontro do tema da casa e sua construção. (...)

 

Então me parece que é preciso olhar pra esse fato comum entre nossos trabalhos – dessa geração de artistas-pesquisadores negr_s no Rio de Janeiro que estabelece esses contatos com os serviços de base (com suas dinâmicas, com seus gestos, com seus ofícios) – como sendo uma tomada de um lugar de reconhecimento de nossas origens e, mesmo, como uma tomada de disputa epistemológica frente aos espaços hegemônicos, tanto acadêmicos quanto os das artes visuais, nos quais nos é uma batalha, ao mesmo tempo que um suplício, nos reconhecermos em potência, como articulador_s, como referências afirmativas de saber e criação dentro do que é posto em pauta.

por Millena Lízia. Excerto de sua dissertação, FAÇO FAXINA - bases contraontológicas para um começo de conversa sobre uma experiência epidérmica imunda, das páginas 158 a 160.

 

Olá,

 

Gostaria de cumprimenta-los pelo trabalho na Abre Alas, a segurança que vocês trouxeram à instituição deixou todo o publico muito tranquilo para festejar.

 

Parabéns!

por Leonardo Siqueira

 

Queria enviar o gif do Romero Brito, mas não pode. Deixo registrada a minha nobre intenção.

 

Att,

 

Luciana Grizoti

 

Obs.: nossa equipe localizou o arquivo que Luciana menciona em sua mensagem:

romero_brito.gif

 

A dupla se veste com traje formal, uniforme padrão para seguranças institucionais, a fim de causar estranheza ao público com as atividades performáticas, as quais são inesperadas visto que diferem das funções associadas a tal figura.

por João Paulo Ovídio. Décima primeira nota de rodapé em seu texto crítico Notas sobre I PEGA, disponível na terceira edição da Revista Desvio.

 

15. Ali eu me sentia como um homem qualquer. Um homem respeitável qualquer. Acho que representante dessa classe de homens nos quais se pode confiar. Sabe?! Um daqueles que mal se percebe a existência e tudo depende deles. Eu era um motorista de ônibus, um porteiro. Alguém que de madrugada ficaria acordado, tomando conta de todos enquanto calmamente repousariam do dia. Ao mesmo tempo, sinto-me com uma consciência incomum de mim mesmo. Isso me parece estranho. Porque eu me observo sendo quem sou e mesmo esse se observa. A gravata me distingue, sempre preta. Ela me protege e me é imposta. Eu trabalho e acabo de enterrar alguém, sou eu, sempre, em eterno luto. Estou sob cerco e ninguém me vê.

por Cesar Kiraly. Excerto do texto Paisagem, o onírico dos dias, disponível no Catálogo do 46º salão de artes visuais Novíssimos. [Galeria de Arte Ibeu, 2017]

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