
Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]
modelo vivo
Sesc Niterói
Niterói, RJ
2025
Ficha técnica
Curadoria: João Paulo Ovídio
Produção: Ana Hortides
Assistente de produção: Cláudia Pereira, Michelle Machado
Projeto expográfico: Igor Affonso
Programação visual: Jessy Gonçalves
Assessoria de imprensa: Roberta Mattoso
Registro fotográfico: Rafael Salim
Professores: Robnei Bonifácio, Vanessa Guida
Educativo: Marcelo Souza
Eis o modelo… mas de que exatamente? O mundo das artes tem dessas coisas engraçadas, de termos formados por um substantivo e um adjetivo, como Modelo Vivo, Natureza Morta e Pintura Histórica, usados para se referir a uma produção, mas também para diferenciá-las. Enquanto uma palavra dá o nome, a outra atribui qualidade e, com isso, um objeto se torna específico. Os termos da História da Arte dão asas à imaginação, sobretudo para quem não está familiarizado com esse vocabulário e busca atribuir um significado. Qualquer substituição, por menor que seja, altera a leitura. Se fosse Modelo Animado, todos seriam obrigados a sorrir? Ou Vigoroso, a transmitir força e saúde? Vivo, por sua vez, exige a presença e nada mais. Carne, osso e sangue.
Quando alguém se refere a uma pessoa como modelo quer dizer que essa representa um bom exemplo, dotada de características que devem ser observadas, seguidas e copiadas. No campo das artes não é diferente. À medida que a Natureza Morta se volta para objetos inanimados, como frutas, flores, louças e livros, o Modelo Vivo retrata figuras humanas, um corpo que respira, pulsa e sente. Já a Pintura Histórica, além de estudos teóricos e vasto conhecimento de literatura, tem como base o Modelo Vivo. Porém, os artistas não devem reproduzir exatamente o que veem, mas sim interpretar e fazer correções, aproximando-se de um ideal estético e narrativo. Os livros didáticos estão repletos dessas imagens.
Tanto os profissionais quanto a prática do desenho recebem o mesmo nome: Modelo Vivo. Os primeiros, sem nomes, tampouco biografias, se mantêm anônimos, sendo identificados pelos seus gêneros, raças, faixa etária e poses. Criança negra, mulher de costas, idoso sentado, homem em pé. Imóveis, não decidem qual pose fazer, somente cumprem ordens: sentado, em pé, levante o braço, flexione a perna, olhe para a direita, agora para a esquerda. Há sessões demoradas, que levam uma hora ou mais, e, as rápidas, com duração de minutos; umas poses requerem um grande esforço físico, enquanto outras permitem um relaxamento. Ficar em uma mesma posição por um longo período não é tão fácil quanto parece. Entendido como um processo metodológico e não como um gênero da Pintura, trata-se bem mais de um meio do que de um fim, um exercício de observação necessário para desenvolver uma composição artística.
No passado, muitos artistas tomavam seus parceiros, familiares e amigos como modelo, outros recorriam a desconhecidos, motivados a posar em troca de alguma remuneração. Inseridos em uma sociedade conservadora, para evitar julgamentos e não ter a reputação comprometida, boa parte optava por manter o trabalho em segredo. A raiz desse preconceito está relacionado ao fato de ser uma atividade que envolve se despir. Embora o foco no corpo humano tenha uma razão científica, na sua anatomia e fisiologia, a nudez era, e ainda é, considerada um tabu. Em vista disso, frequentemente, essas vagas eram ocupadas por profissionais das Artes Cênicas e da Dança, uma vez que encaravam a demanda com naturalidade. Engraçado como pouca coisa mudou.
De modo provocativo, Modelo Vivo nos convida a discutir a respeito do mundo das artes. A Galeria do SESC Niterói vira um Ateliê, local em que o público dificilmente tem acesso. Mais do que um deslocamento para onde os artistas, bastante solitários, desenvolvem os seus trabalhos, ou em que uma turma, em processo de formação, toma lições, criou-se uma instalação. A exposição se inicia como um retorno às aulas, com materiais novos e murais vazios. Aos poucos, com as interações, o espaço se transforma. Os professores assumem a tarefa de ensinar e os visitantes, enquanto alunos, o de aprender. Por conseguinte, ao desenhar, eles contribuem para o desenvolvimento da ação. Dispostos em seus cavaletes, ninguém tem a mesma visão, resultando em perspectivas únicas. Ao ver os desenhos na parede, surgem questões como: Quem são esses homens? Por que foram retratados tantas vezes? Portanto, as criações são, ao mesmo tempo, registros dos encontros e rastros da presença.
Mas o que faz um segurança aqui? Ou melhor, dois. Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. transitam entre mostrar e subverter, reproduzir e fabular, lembrando-nos que mesmo próximos da realidade, a matéria da arte contemporânea é a ficção. Ninguém espera a presença de homens usando terno e gravata em um Ateliê. Frequentemente, essas pessoas são vistas a partir do momento que oferecem soluções para atender às necessidades das instituições culturais. Quando não sabem algo, é cobrado que improvisem. Nem profissional, nem sênior, seguranças-etc. Nesse sentido, Modelo Vivo estimula uma relação ambígua, pois ao mesmo tempo em que observam o local a fim de protegê-lo, são observados para fins artísticos. Nesse jogo de olhares, do vigiar e do vigiado, cada um desempenha sua atividade.
Independentemente de suas vontades, os seguranças passam a exercer um papel duplo. A turma, na busca por um modelo, encontra nessas figuras os atributos necessários para desenvolver os seus trabalhos. No entanto, tal situação reforça o quanto a precarização da mão-de-obra atinge sobretudo a população negra e periférica. Ao se valer da própria História da Arte, a performance fomenta uma crítica sobre a representação e a representatividade, atribuindo protagonismo a um grupo invisibilizado. Em pé, com as mãos para trás, expressão séria, atentos ao movimento de quem entra e de quem sai. Diariamente nessa posição, há pouca ou quase nenhuma variação. Os ponteiros do relógio giram em câmera lenta, os dias se arrastam, predomina o sentimento de tédio.
Diferente de um modelo vivo de fato, Amador e Jr. não encenam, nem seguem instruções. As poses são capturadas a partir da observação de suas rotinas, distante de movimentos heróicos ou dramáticos das esculturas greco-romanas. Se de um lado, eles acatam as convenções da empresa por uma questão de sobrevivência, do outro, os gestos de desobediência confrontam a ideia de dominação sobre os seus corpos, que recusam ser um objeto a cumprir funções que lhes são impostas. Seguranças em pé, seguranças vigiando! Sem intenção de posar, a turma conta com a presença deles e nada mais! Terno e gravata. Eis os modelos.
Modelo vivo, por João Paulo Ovídio

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]

Modelo vivo [curadoria: João Paulo Ovídio], 2025, Sesc Niterói, Niterói, RJ [foto: Rafael Salim]