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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

amador e jr. segurança patrimonial ltda.: nem profissional, nem sênior

Casa França-Brasil

Rio de Janeiro, RJ

2024

Ficha técnica

Curadora: Carolina Rodrigues

Produção Executiva: Ana Hortides

Assistente de produção: Michelle Machado

Projeto expográfico: Gisele de Paula

Assistente de projeto: Alexandra Souza

Educativo: Kássia Meireles, Carlos Martelote

Palestrante convidada: Renata Sampaio

Consultoria de acessibilidade: Thyago Correia

Roteiro de audiodescrição: Daniel Bruno

Consultoria de audiodescrição: Ana Beatriz Azevedo

Assessoria de imprensa: Sheila Gomes, Elza Gimenez

Identidade visual: Jessy Gonçalves

Revisão: Stephany Campos

Tradução: Lenir de Almeida

Social media: Agência Dellas

Montagem: Los Montadores

Quando estávamos nos preparativos para a abertura da exposição, avisei ao Jandir Jr. que vestiria um blazer preto para referenciar os artistas. Se tratava de uma brincadeira: já que estou prestando um serviço para a empresa Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda., devo me portar como uma legítima representante da firma. Em algum momento, recebi uma mensagem na qual ele levantou a hipótese de o público me confundir com uma verdadeira segurança, e me abordar para pedir informações. Em meio a algumas risadas, uma pergunta: “você está preparada?”. Mais do que preparada, eu estava ansiosa por experimentar esse lugar, depois de tanto ouvir sobre as situações inusitadas que esses artistas vivenciam em seus expedientes performáticos. No entanto, tudo era apenas uma especulação, uma vez que eu não estaria necessariamente seguindo o padrão dos uniformes.

 

No dia 22 de junho de 2024, menos de 5 minutos após a abertura dos portões, me direcionei à entrada da Casa França-Brasil na procura de um amigo. Nesse momento, um visitante me abordou cheio de perguntas sobre uma mostra que acontecia no salão central, da qual eu não havia tido qualquer participação. Em uma interação de pouquíssimos minutos, acessei todo o meu repertório de chão de museu - principalmente o daquelas experiências mais precarizadas, onde a equipe de mediação cai de paraquedas para receber o público sem qualquer contextualização com a curadoria - e pude conversar sobre as diferentes perspectivas e linguagens artísticas apresentadas naquela exposição. Me sentindo um pouco impostora, em uma prática cênica bem amadora, experimentei a ironia de me deixar levar e guardar apenas para mim o entendimento do que realmente estava acontecendo.

 

Se eu esperava perguntas triviais sobre a localização do banheiro ou o horário de funcionamento da instituição, essa experiência evidenciou aquilo que fundamenta toda a existência do trabalho de Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: o repertório do indivíduo presente no espaço expositivo, uniformizado, sempre disponível, mediador. É desse lugar, das situações cotidianas e da efervescência do encontro entre os dois artistas no ambiente laboral, criando piadas que sucedem os acontecimentos mais inusitados, que as performances ganham seus contornos.

 

Antonio Gonzaga Amador e Jandir Jr. são educadores, artistas e pesquisadores, doutorandos em universidades públicas. Já exerciam a função pedagógica em museus e instituições culturais antes de fundar sua empresa e seguem nessa carreira no momento em que esse texto é escrito. Suas histórias são perpassadas por contextos em que pessoas educadoras passam suas jornadas de trabalho como um corpo disponível ao público por 40h semanais, para monitorar e mediar o contato com o espaço e com as obras. Uma mediação que acontece tanto no campo conceitual, quanto no material: não pode correr, não pode tocar as obras, não pode tirar foto com flash. Se trata de um corpo impedido de ler os livros que o ajudariam a fornecer um melhor serviço, mesmo que o espaço esteja vazio, pois precisa estar em permanente estado de atenção para garantir a segurança das obras. Também é um corpo conduzido à exaustão, que não pode se movimentar livremente, se alimentar ou optar por vestimentas mais confortáveis, fora do rigor exigido durante seu expediente.

 

A segurança patrimonial, função que possui tantas confluências com essas condições, que muitas vezes as agrava, se torna o vetor dessas discussões. A extrema formalidade, a objetividade de suas atribuições, a prontidão e uma postura quase inviolável levam a noção de precarização do trabalho in locu ao extremo, potencializada pelas questões étnico-raciais e de classe. Trabalhar com essa imagem transforma as ações performáticas em uma plataforma de onde podem ser observados o desconforto, a insensatez, o constrangimento e até a violência – disfarçada de ingenuidade – de alguns públicos privilegiados que enxergam nesse código de vestimenta um sinal de subalternidade.

 

Embora a perspectiva crítica, que provoca tanto o público quanto a própria instituição artística, seja latente, o que me interessa acessar são as camadas que evidenciam uma concepção de arte desenvolvida com base na experiência de artistas-educadores que partiram de áreas suburbanas e periferizadas, com todos os seus referenciais culturais, e que atravessaram a cidade para trabalhar nas áreas centrais e mais elitizadas. Um olhar estratégico de quem circula por vários espaços e pode perceber, de dentro, o quanto os códigos visuais de uma determinada arte contemporânea se distanciam do repertório de vida da maioria da população, forjando uma supremacia intelectual inalcançável.

 

Existe uma grande sacada, nem sempre acessada imediatamente, em figurar nos espaços expositivos incorporando um segurança vestindo terno e gravata: essa não é uma imagem que encontramos apenas nos espaços de arte. Poderia ser um segurança de shopping, de supermercado, da entrada de uma festa. Esse uniforme é uma linguagem conhecida, familiar, que faz com que esses sujeitos passem despercebidos até que o público lhes direcione uma demanda genérica. Uma figura pretensamente neutra, até que algo seja afetado no ordenamento esperado. Que mesmo podendo simbolizar um potencial de violência para determinadas coletividades, é reconhecida e legitimada como parte da classe trabalhadora racializada.

 

Se a galeria de arte pode ser um ambiente estranho ao cotidiano da maior parte da população, que facilmente confunde e desorienta, a presença humana uniformizada nesse espaço é um ponto de contato com a realidade, ajuda as pessoas a se situarem, a pisarem nesse terreno com mais firmeza e acessar seus códigos de comportamento. Em um movimento contraditório, o segurança pode aumentar ou diminuir a sensação de vulnerabilidade desse público, mas sempre será um marco referencial.

 

A exposição Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda: nem profissional, nem sênior propõe uma torção radical no que se entende como a imagem de artistas e de uma exposição de arte e, com isso, firma diversos pactos silenciosos com as pessoas trabalhadoras que passam pela mostra, seja cumprindo seus expedientes ou tendo um momento de lazer. É impossível passar indiferente ao que é proposto nesse espaço, mesmo que a sensação inicial seja de um pequeno constrangimento ou de confusão.

 

Localizada na sala lateral da Casa França-Brasil, contemplando o antigo cofre da instituição com os registros da performance “Cofre”, a exposição acontece em um espaço que é normalmente destinado às atividades das equipes de educação das exposições em cartaz no salão central. Uma sala de trabalho. O espaço expositivo é dividido entre duas áreas complementares. Ao ingressar no local, podemos conferir uma grande variedade de serviços oferecidos pela dupla, com ilustrações precisas e descrições das ações que serão realizadas para a instituição contratante. É onde as performances se materializam, reivindicando seu lugar no circuito artístico, antes mesmo da transposição para a ação dos artistas. Paralelamente, também podemos observar registros panorâmicos dos serviços em plena execução.

 

O que poderia ser, até então, uma exposição convencional de elementos performáticos, recebe um ruído que não pode ser ignorado, e que pode fazer os visitantes hesitarem se devem ou não ingressar na sala. A segunda área da mostra, presente no campo de visão desde a entrada da sala, nos coloca a dúvida se aquele se trata de um espaço público ou privado. Enquanto observamos desenhos e fotografias, precisamos lidar com a estranheza de ter uma televisão ligada com programas da tv aberta, um microondas, um armário de ferro com roupas penduradas, uma grande mesa com um radinho de pilha, dominó, jogo de cartas, demais miudezas, cadeiras de plástico com uma mochila e uma calça jeans. Estamos adentrando os bastidores da operação dos vigilantes e estabelecemos uma surpreendente relação de intimidade e cumplicidade. Um contato com a dimensão mais humana, subjetiva e descompromissada daqueles que sustentam uma postura austera na maior parte do tempo. O momento do intervalo.

 

O jogo presente no espaço é o mesmo que fundamenta, em parte, os serviços oferecidos por Amador e Jr.: mesmo diante do estranhamento, de uma sensação distópica e da dúvida de como (e se) interagir, o trabalho apresenta algumas âncoras, pequenos elementos que acessam memórias afetivas e transpõem a realidade das vidas cotidianas do povo trabalhador e mesmo das crianças, para uma instituição artística. Entre chinelos, pipas, isopor com cervejinha, uma foto com celular e um espaço para se distrair e fofocar, os artistas ultrapassam a dimensão crítica e apontam para os desejos. E cada vez mais, temos, nesses espaços, quem se identifique com esses desejos.

 

Costumo dizer que, para que uma pessoa seja uma boa curadora, é necessário que, antes, seja uma boa educadora. Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. me provocam a estender essa afirmação um tanto pretensiosa aos artistas. A verdade é que apenas bons educadores poderiam comunicar tão facilmente sem cair em clichês e simplificações, promovendo essa versatilidade de reflexões, interações e provocações. O serviço prestado por essa empresa, talvez, seja mesmo de utilidade pública.

 

Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior, por Carolina Rodrigues

Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [vídeo: João Marcos Latgé / acessibilidade: Video Shack]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

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Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.: nem profissional, nem sênior [curadoria: Carolina Rodrigues], 2024, Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, RJ [foto: Rafael Salim]

Logotipo da Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.

Este projeto foi fomentado pelo Programa Funarte Retomada 2023 - Artes Visuais

Régua de patrocinadores do site da Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. Da esquerda para a direita, os logotipos das seguintes instituições: Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), Ministério da Cultura, Governo Federal - Brasil - União e Reconstrução

© 2025 Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.

por Antonio Gonzaga Amador e Jandir Jr.

Desenvolvimento do site: Jonas Esteves

Tradução: Natália Lucas

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